
Louco que era pelo mar, Fred quase não acreditou quando deu de cara com uma sereia. Fosse Clara uma mulher apenas, de onde teria vindo todo aquele encanto?
Ela, por sua vez, primeiro sentiu (bem ali no seu querer) uma fisgada. Quando viu, já era dele. E vice-versa.
Há quem diga que foi a hora, ou foi o dia, ou foi Netuno, ou foi o acaso.
Há quem diga que é mentira, não pode, está errado, que é impossível, nos dias de hoje, duas pessoas se amarem desse jeito.
Compreensível.
Não é sempre que as palavras "casal", "amor" e "felicidade" formam frase tão perfeita.
Quem vê Fred e Clara juntos, com suas mãos imantadas, e seus olhos se buscando, e seus sorrisos orgulhosos, e seus cochichos, e seus planos, acha aquilo meio estranho. Mas, depois do estranhamento, aí vem a esperança, pois é só raciocinar um pouco: se existe um casal que dá certo, podem existir outros.
Ser feliz vira possibilidade.
Até existe prova.
O amor tem precedentes.
Fred e Clara servem de "critério ou pretexto a práticas posteriores semelhantes", diria o Aurélio. Ou, simplificando um pouco, Fred e Clara são um atestado, um aval, um aviso.
– Atenção!
– Respirem aliviados.
– Pulem de alegria.
– Podem comprar o champanhe.
– Mandem soltar os fogos.
– Peçam para tocar a música, motivo é o que não nos falta.
Pelo visto, não era lenda.
O amor existe mesmo.
Já foi comprovado o fato.
O caso faz lembrar uma antiga canção francesa que falava de um casal apaixonado: "Je ne sais s'ils sont vrais, ou si je les invente, mais je peux te jurer que ce soir ils seront lá" (eu não sei se eles são de verdade ou se eu os invento, mas eu posso jurar que nesta noite eles estarão lá). E estarão mesmo: na feira, no shopping ou no cinema, quando você menos esperar pode dar de cara com os dois abraçadinhos.
Então, prepare-se.
Fred e Clara não são de filme, novela, romance ou poesia, não saem em revista e nunca revelaram seu segredo. A razão é simples. Não existe segredo nenhum a revelar. É amor somente, sem mistério nem enigma, amor com problema diário e com imprevisto noturno, amor com engarrafamento, controvérsia, ventania, amor com "e agora?", "e depois?", "e se esse amor gastar um dia?", amor com cuidado, doideira, combustão, gritaria, silêncio, saudade, troca, desvelo, amor com ternura, lembra como era?
Coisa assim como vaga-lume, estrela cadente, concha do mar e casal apaixonado é tão bom de encontrar que até parece lance de sorte.
Ou então é porque Deus existe.
O certo é que Fred e Clara viraram totem de uma pequena tribo (em extinção) de seres que se amam de verdade.
E se algum dia o amor não conseguir mais encontrar hospedagem nos casais, alguém, em algum lugar, vai contar essa história para as crianças: era uma vez um homem e uma mulher, e eles se chamavam Fred e Clara, e eram completamente apaixonados um pelo outro.
Adriana Falcão